Deputado de Maringá votou contra investigação de Temer por formação de quadrilha

O deputado federal Edmar Arruda (PSD), de Maringá, votou a favor do relatório do deputado Bonifácio de Andrada (PMDB-RJ), contrário ao prosseguimento da denúncia contra Michel Temer e os ministros Eliseu Padilha (Casa Civil) e Moreira Franco (Secretaria Geral).

Foram 39 votos pela suspensão do processo contra 26 a favor da denúncia. Houve uma abstenção: o presidente da CCJ, Rodrigo Pacheco (PMDB-MG), não votou.

Os paranaenses Evandro Roman (PSD) e Osmar Serraglio (PMDB) também votaram a favor do relatório que salva Temer. Rubens Bueno (PPS) votou contra.

Com o resultado, o relatório segue agora para votação no plenário da Câmara. A sessão deve acontecer na próxima 4ª feira (25.out).

Evolução não é progresso: uma reflexão

Houve um tempo em que as pessoas se divertiam quando um escravo era colocado numa arena para ser comido por leões; homens lutavam até a morte para entreter a realeza; mulheres eram queimadas em fogueiras, pessoas enforcadas em praça pública e a multidão, em êxtase, se acotovelava para assistir. Pensei que estávamos livres desse tempo, mas aqui no Brasil, vemos o retorno dele avançando. Em breve, não será mais a liberdade que abrirá as asas sobre nós.

Setembro de 2017 será marcado na história como o mês em que o fascismo mostrou as suas garras e arreganhou os dentes para o povo braqsileiro. Um vereador em Maringá se propôs a combater as palestras sobre “Escola sem LGBTfobia”, em escolas estaduais, com medo de uma tal ideologia de gênero que não existe, nunca existiu e nunca existirá; um juiz autoriza que psicólogos “tratem homossexuais”, com objetivo de cura ou de reversão sexual. Isso é um retrocesso se considerarmos que durante séculos, pessoas homossexuais foram tratadas como criminosas, ou como doentes. Esse tempo já passou, mas estão querendo torna-lo presente. E, para fechar o mês com chave de ouro. O STF autoriza o ensino religioso nas escolas do país. Passaremos de um Estado laico, para um Estado confessional. Engalfinhem-se católicos e protestantes, pois uma religião terá de ser superior à outra.

Parabéns brasileiros e brasileiras! Em breve, isso aqui tudo vai virar um quintalzão do MBL. Já é possível que qualquer pessoa que tenha notório saber dê aulas, o que fará com que fundamentalistas religiosos entrem nas salas de aula para “educarem” nossas crianças, afinal, estarão municiados do notório saber. As discussões de gênero, educação sexual e combate às violências estão sendo perseguidas e retiradas da prática. A famigerada escola sem partido entregará à sociedade adultos sem discussão política, sem pensamento crítico, verdadeiros apedeutas.

O Brasil engatou a marcha à ré e está voltando no tempo, retrocedendo na história, “desevoluindo” as pessoas, retirando direitos, cerceando as liberdades. Um belo exemplo de que evolução não é a mesma coisa que progresso.

Resposta ao arcebispo de Maringá: Não existe ideologia de gênero

Fabiana Carvalho

(Em resposta ao texto do Arcebispo de Maringá, Dom Anuar Battisti, publicado na Seção “Opinião” do Jornal O Diário, em 24/09/2017)

“Todos os dias recebo dezenas de questionamentos sobre o que vem acontecendo nas escolas sobre a ‘ideologia de gênero’”…

Com a paráfrase da frase inicial do texto de Dom Anuar Battisti, gostaria de tecer algumas argumentações sobre as temáticas de gêneros, das sexualidades e das diferenças presentes nos espaços escolares, afim de dizer: não existe ideologia de gênero! Minha escrita é pautada por um convite à reflexão, não deseja a polêmica gratuita, mas, sim, o diálogo e o respeito ao que pesquisamos e discutimos, portanto, num desdobramento que sustenta a base laica da educação brasileira e das instâncias de Estado, que endossam a coletividade e os saberes plurais, minha resposta não se guiará por argumentos religiosos e morais, mas por uma objetividade direcionada, racionalmente, por argumentos que derivam da História e da produção científica das áreas de Ciências Humanas e Biológicas. Este posicionamento, no entanto, não desconsidera preceitos éticos que tratam do amor e do estabelecimento de posturas equitativas e igualitárias em relação a todos os seres humanos e, em especial, às mulheres e às pessoas LGBTTs.

Todos os dias sou interpelada sobre tomadas de medidas para o combate de violências para com essas minorias. Todos os dias perguntam-me sobre como trabalhar gênero e sexualidade em intervenções pedagógicas que visam a valoração de condutas e valores para com a alteridade. Falar sobre nem sempre é tão fácil e confortável, uma vez que, como educadoras/es, esbarramos em dificuldades para desenvolver temas diferenciados devido à falta de investimento governamental, devido às carências de nossas formações iniciais, à pressão dos cronogramas e do ensino dos conteúdos escolares, às barreiras impostas pelas equipes diretivas, pedagógicas e por parte das famílias de alunas/os (que impedem-nos de assumirmos a corresponsabilidade nos debates das questões sociais contundentes), além disso, ainda temos a interferência de tabus, preconceitos e pensamentos do senso comum e a sobreposição de dogmas religiosos que, como a obstáculos, competem com a educação consciente, problematizadora, científica e cidadã nas escolas. Entretanto, é-se preciso perguntar qual o interesse por detrás dessa explosão discursiva e que dispersa tantos (e alguns, realmente confusos) enunciados sobre os gêneros. Neste sentido, eu gostaria de trazer contrapontos, não para que se “joguem umas/uns contra as/os outras/os” e se estabeleça um terreno de intolerâncias, medos, coerções e perseguições que nos levarão a uma beligerante pedagogia do ódio; o intuito é fazer ponderar, fazer-se conhecer em nossos trabalhos que foram, sem prévia informação e à nossa revelia, desqualificados no posicionamento de nosso líder religioso católico.

Há um longo recorte a se fazer para se contextualizar os Estudos de Gênero, Sexualidade e Diversidade. Equivoca-se quem os aponta como recentes e derivados, exclusivamente, das políticas das agências internacionais, tais como a ONU e a UNESCO, ou, ainda, de órgãos governamentais como o nosso MEC. Desde o final do Século XIX, diversas/os cientistas e estudiosas/os contestaram a compreensão de uma natureza fixa, imutável e pautada exclusivamente na dimensão biológica da existência das pessoas e de seus instintos. Freud tomou a sexualidade com pulsão psico-emocional-afetiva dos seres humanos, localizando-a, no decorrer das fases da vida, em locais corporais onde o desejo e o prazer se manifestam com maior ou menor potência e intermediam a nossa relação com o mundo e com outros seres humanos. O antropólogo Bronislaw Malinowski e, nas primeiras décadas do Século XX, a antropológa Margareth Mead, em estudos de campo e com observação de diversas tribos e organizações sociais em contextos específicos, lançaram luz à compreensão de que cada grupo constrói os corpos, as sexualidades e os gêneros de maneiras diferenciadas e contingentes. Advém daí as bases que postulam que nossos modos de ser são relacionais, históricos e variantes de acordo com os locais que ocupamos e pelos quais nos moldamos, com as épocas, com as tecnologias e com outras pessoas; a inscrição do que é considerado masculino ou do que é considerado feminino, portanto, ganha sempre um sentido social e está circunstanciada pela compreensão de cada uma de nossas culturas planetárias. Nós, que nos formamos a partir da colonização branca, europeia e apostólica, temos dificuldade em presumir e considerar modos de existências diferentes do nosso e olhamos o mundo de maneira binária, com as lentes “do isso ou o aquilo” que, em boa parte do tempo, excluem as materialidades corporais que intersectam várias outras possibilidades de ser.

Nas décadas de 1960 e 1970, período que começa a por em cheque a exploração capital, a desigualdade oriunda das guerras, o consumo desenfreado da natureza e das relações de trabalho, os gêneros e as sexualidades avançaram nas arenas políticas graças às lutas sociais encampadas por minorias de mulheres, de negras/os e por minorias homossexuais que, militantemente, avançaram em visibilidade e nas pautas públicas por direitos civis, por garantias às suas saúdes, aos seus trabalhos e aos seus modos de vidas. O gênero, desde então, é tomado como uma categoria política que analisa como a sociedade cria, delega, importa e exige papéis, comportamentos e condutas sociais específicas (que, na maioria das vezes, são limitantes, excludentes e ou violentas) para mulheres, homens, jovens e crianças. Os Estudos Feministas ou generificados contribuíram muito para se denunciar o território de desigualdades e violências criado por um centramento masculinista e sexista de mundo; expuseram o aprisionamento do papel da mulher aos atributos familiares e reprodutivos ao contestar, principalmente, a imposição de papéis sociais (e econômicos) legitimados pela leitura equivocada e distorcida de funções e características biológicas. Destacaram que em nossos corpos atravessam os pertencimentos culturais, as raças, as etnias, as idades, as sociedades, as crenças, as subjetividades, os sistemas de troca e também as diferentes vivências do desejo sexual, o que culminou na crítica da heterossexualidade – orientação eleita como a regra, a norma e a única implicação possível para se coligar às parcerias afetivas. E mais: abriram as picadas para o estabelecimento de uma série de leis, punições e regimentos públicos de combate à violência contra mulheres e minorias sexuais.

Nas décadas seguintes, essas e outras proposições somaram-se às políticas internacionais que visam garantir a paz, eliminar as desigualdades, promover a equidade, erradicar a fome, extinguir as guerras e as diferenças econômicas, sociais e sexistas em todos os Países. A ONU é a responsável por aglutinar essas pautas e promover o diálogo no mundo para que se revertam as situações conflitantes e desiguais. Ocupar uma cadeira na ONU é ter direito à escuta, à fala e às relações que se desdobram em reconhecimento político, econômico e social, assim sendo, o Brasil, como País signatário, coopera e difunde as metas propagadas pela organização e pelos princípios discutidos em fóruns, reuniões, sessões e debates acordados com cento e noventa e três nações. A ONU reconheceu a nós, mulheres, como agentes promotores da paz, mantenedoras de núcleos afetivos-familiares, formadoras de opiniões e combatentes de processos discriminatórios, violentos, sexistas, racistas e homo-lesbofóbicos e exorta a nossa participação em processos e em tomadas de decisões sociais.

No bojo dos avanços das discussões de gênero, alguns setores católicos e evangélicos empunham, desde o final da década de 1990, nos Estados Unidos, em países sul-americanos, africanos e europeus (com forte influência de lideranças religiosas), arbitrárias críticas à ONU e à UNESCO e às suas proposições para o combate da desigualdade dos gêneros. De acordo com suas concepções dogmáticas, o propósito da militância seria gerar uma espécie de agenda cujos objetivos abarcam: o controle populacional, a liberdade sexual, a promoção dos direitos gays, lésbicos, transexuais e transgêneros, o apoio ao multiculturalismo, o apoio aos movimentos ambientalistas e às causas ecológicas, o vínculo teórico às bases marxistas, pós-modernistas e desconstrutivistas e a incorporação da perspectiva de gênero em todo programa e política nos setores públicos e privados. Acreditam que o gênero tenha nascido em laboratórios realizadores de experimentos sociais, sendo enxertado gradativamente na revolução feminista dos anos de 1960-1970, na revolução cultural dos anos de 1980, nas proposições dos órgãos e comunidades internacionais – sobretudo, as advindas da Conferência Populacional do Cairo (1994) e da Conferência Mundial sobre as Mulheres de Pequim (1995), que consagraram a igualdade dos direitos e o gênero como constructo decorrente das relações de poder e dos padrões socioculturais. E mais. Apontam que, não satisfeitas, as feministas deliberadamente implantariam o nonsense da homossexualidade e promoveriam a diversidade de orientações sexuais deturpadas a corromper a mente de jovens e crianças.

Infelizmente, algumas dessas posturas defendidas por religiosas/os têm proferido uma adulteração cínica da verdade histórica, difundido que a educação para o respeito às diferenças, aos gêneros e às minorias LGBTTs seria a causa da destruição de bases que regimentam o Cristinanismo, entre elas: a família conjugal, a fixação de sexos biológicos binários, a hegemonia patriarcal e a própria Igreja. Neste quadro, as discussões relacionadas aos gêneros e sexualidades, no cenário político nacional, têm-se tornado cada vez mais exibidas numa espetacularização banalizante dos tramites das políticas públicas que tocam, mobilizam e se pautam em questões de educação, de saúde, de direitos e de segurança das mulheres e de LGBTTs.

No cruzamento com a representatividade política religiosa presente na Câmara dos Deputados, no Senado, nas Assembleias Estaduais, em Câmaras de Vereadoras/es ou mesmo em grupos culturais organizados, as articulações com discursos dogmáticos e fixistas são sustentadas por movimentos confessionais e ecumênicos que se declaram contrários à toda proposição científica ou filosófica que se interpõem, contrasta ou contradiz à chamada lei natural da vida. Produzem as/os inimigas/os a ser combatidas/os, que chamam de “ideólogas/os de gênero” e, conformem dizem, apontam o lugar onde essas/es se encontram: na militância, nos centros de pesquisas, nas universidades e nas escolas como professoras/es e simpatizantes dos direitos LGBTTs .

Essa concepção também se tornou a pauta central de muitos movimentos evangélicos e católicos que exercem atividades missionárias e educativas na América Latina, África e Ásia, por isso, o apelo ao que chamam de colonização ideológica. Concomitante à criação da suposta “ideologia de gênero”, do final da década de 1990 para cá, estouram e se deflagram os escândalos envolvendo padres, clérigos e bispos pedófilos em países como os Estados Unidos, a Colômbia e a Itália. As bases comunitárias, em extensivos trabalhos de conscientização, educaram crianças para denunciar os assédios. Houve toda uma investida da Igreja em inviabilizar o trabalho destinado à prevenção dos abusos sexuais e em abafar a contravenção que implodia seus próprios dogmas (É bom assistir ao filme: Spotlight: Segredos Revelados).

Foi-se preciso criar um objetivo comum. O objetivo é o combate à “Agenda Gay” em conjunto com o combate à “Agenda de Gênero”, disseminando que essas seriam as verdadeiras corruptoras das famílias e das crianças. Vale pontuar que suas/seus representantes no cenário legislativo do país visam, entre outras ações, impedir a realização das metas destacadas nas Conferências da ONU, principalmente as que tangenciam as ações anti-violências, os direitos sexuais e reprodutivos de nós, as mulheres.

Os grupos religiosos conservadores, portanto, criaram discursivamente a ideia de “ideologia de gênero” (volto a sustentar que não existe ideologia de gênero; o que existe são estudos, proposições, ações educativas e intervenções que visam à educação para o respeito e para a ética com os diferentes), estabelecendo uma categoria política reacionária e reativa, difundida desde o final da década de 1990 por documentos eclesiásticos e livros, tais como: “La ideologia de género: sus peligros y alcances”, de Monsenhor Oscar Alzamora Revoredo, bispo auxiliar de Lima (Peru); “La Ideología del Género o el género como herramienta de poder” e “Ideologia de Gênero: o neototalitarismo e a morte da família”, escrito por Jorge Scala; e, no âmbito acadêmico, “Ideologia de Gênero”, organizado Ives Gandra Martins, jurista e advogado vinculado ao Prelado Católico Opus Dei. A síntese dessas obras é apregoar o gênero como farsa, como antinatural e como ideologias maldosas derivadas de lobbies homossexual, feminista, existencialista, construtivista social, existencialista, comunista e ateu. Em suma, operam uma descontextualização de bases teóricas e fazem recortes tendenciosos que capturam pessoas que sentem medo de interpelar o poder pastoral das Igrejas.

A proposição religiosa, no contexto atual, também esta encampada pelo Movimento Brasil Livre e pelo Movimento Escola Sem Partido. Essas duas organizações mantém dispositivos de negação e de controle à educação para os gêneros e para as sexualidades na veiculação de enunciados e discursos que colocam a família como ameaçada e os órgãos governamentais e de ensino, entre eles o MEC, como maquinarias de doutrinações ideológicas responsáveis pela dissolução da moral vigente. Desconsideram os avanços curriculares conquistados ao longo de décadas, as bases e os conteúdos estruturantes da escolarização básica e os preceitos que estão alinhados às políticas educacionais mundiais, às metas equitativas da ONU, dos países que se estabeleceram como referências em termos de desenvolvimento econômico e social. Enfim, promovem, nas entrelinhas, um desmantelamento do sistema educacional para o que mesmo seja desacreditado e aberto às relações econômicas. Vale ainda destacar que ambas as organizações defendem, em termos de políticas educativas, a legalização do “homeschooling” (educação domiciliar que aumenta o poder de interferência familiar na instrução dos estudantes e diminui a socialização coletiva), a apresentação de políticas refratárias em legislativos estaduais e municipais, a redução de impostos para escolas privadas, a militarização de escolas, a gestão privada da escola pública por organizações sociais e sistemas de ensino particulares (inclusive, os sistemas de ensino confessionais), a facilitação da expansão da rede privada via financiamento institucional, a censura de professoras/es em suas práticas docentes e a extinção das abordagens de temas com relevância social.

Boa parte da conclamação moral das autoridades religiosas e desses movimentos conservadores, precisamente, evoca um discurso biológico e natural dos sexos e dos gêneros (e corrobora para o medo e a censura de educadoras/es na abordagem de tais assuntos).

Como bióloga, posso dizer que os aspectos biológicos e culturais não se excluem, mas se interdependem de maneira que não podemos considerar nem os sexos, nem as sexualidades e tampouco os gêneros como características exclusivamente inatas. Nessa compreensão inter-relacional, tanto a cultura quanto a biologia dos seres se retroalimentam para garantir aspectos adaptativos inerentes à nossa espécie e negociáveis em nossas sociedades (ser mãe, por exemplo, pode até ter um sustento instintivo, mas, socialmente, podemos ter a escolha de quando, como, se queremos ou não ser mães, adiando, programando ou negando a predisposição com tecnologias de contracepção; a Igreja Romana e as Igrejas Neopentecostais, até os dias de hoje, veem isso como pecado gravíssimo contra a natureza e são contrárias aos métodos contraceptivos de barreira).

Embora eu apresente essa visão mais construcionista e conciliatória para vislumbrar corpo, sexo, gênero, desejo afetivo-sexual e de forma mais empática, ao nível das explosões discursivas, das falas, das censura e das acusações, a Ciência Biológica acaba sendo distorcida para produzir sentidos, compreensões e significados científicos, culturais e políticos equivocados na cabeça das pessoas leigas. Tomar, por exemplo, os cromossomos como estritos condicionantes do desejo afetivo-sexual e das construções de papéis sociais de gênero é promover uma explicação enviesada de contradições conceituais, biologicamente falando, que apaga o papel de interações enzimáticas, moleculares, fisiológicas, hormonais e até mesmo ambientais na configuração dos aspectos secundários de nossos corpos. Ao se vincular e se disseminar a existência de indíviduos “XX”, como fêmeas, e “XY”, como machos, está-se fazendo apenas um recorte de estudos maiores e que ainda não chegaram a consensos; fixa-se o sexo como destino fisiológico, psicológico e produtivo para mulheres e homens e se atribuem papéis generificados que tomam a diferença biológica como condição determinante da vida social – e isto é um erro crasso na interpretação das possibilidades existenciais. No senso estrito dessa mesma explicação, apagam-se outros arranjos genéticos e fenotípicos a interferir em pessoas X0; em pessoas XX, XXYY, XXXY, XXXYY, XXXXY, em pessoas com insensibilização androgênica e que apresentam traços intersexuais que não se enquadram na classificação binária. Pesquisas recentes apontam para outros mosaicos e arranjos; o que o senso comum irá determinar como síndrome é, na verdade, uma materialidade corporal possível e bem mais propensa a acontecer do que se imagina. O problema é que, muitas vezes, essas manifestações são observadas pelo preceito reprodutivo e corpos são mutilados sem que haja a consideração da subjetividade e do desejo da pessoa em ser ou não uma dado corpo.

Na lógica excludente e discriminatória, ao se enunciar que “menina já nasce menina e menino já nasce menino”, impõe-se, também, que os gêneros das pessoas estão carimbados e atrelados aos condicionantes físicos e biológicos, dispensando qualquer outra marcação cultural. Neste sentido, a biologia é apenas uma base de interpretação. Decalcá-la como sina é arbitrário e, imperativamente, redutivista.

Todos os nossos corpos são talhados em nossas relações sociais, em tecnologias, em épocas, em diferenças. Ser mulher no Paraná não é o mesmo que ser mulher num país da África. Desejo afetivo é intrínseco à pessoa, ninguém se contamina com o desejo de outrem. Macho e fêmea são categorias biológicas que se aplicam a outros seres vivos (sapos e violetas, por exemplo); elas não coincidem exatamente com os critérios sociais que vão designar o que é ser mulher, o que é ser homem ou o que é ser uma pessoa altera em cada tempo, espaço, lugar.

Nenhuma escola ensina alguém a mudar de gênero. As escolas fazem (ou deveriam fazer) a mediação do entendimento que há diferenças, que essas não possuem uma causa primeira de origem natural, genética, patológica, neuronal, emocional ou psicológica; nenhuma diferença deveria ser curada ou padronizada. No espaço coletivo da escola, nenhuma visão de mundo deveria desrespeitar a outra. Os currículos servem, entre outras coisas, para isso.

Educadoras/es não doutrinam; ao contrário: ensinam discernimento crítico. Docentes possuem base legal para se trabalhar gêneros e diferenças nas escolas; a Constituição, a LDB, Parâmetros e Diretrizes Curriculares amparam a legalidade transversal da educação para os gêneros, as sexualidades e as diferenças. Calar docentes significa jogar fora todo esse amparo legislativo e a democracia como princípio da nossa organização social.

Nenhuma pessoa deveria ser retirada da cena pública e do convívio com outras pessoas por ser lésbica, homossexual, bissexual ou assexuada. Nos discursos que taxam as/os “ideólogos de gênero” se comete justamente esse equívoco: “nós até amamos as pessoas LGBTTs, desde que elas não se manifestem, não entrem na escola, não partilhem de suas dores para que nossas/os filhas/os saibam de suas dores”. Ninguém muda seu gênero de uma hora para outra como se desligasse uma tomada e se surgisse um novo ser – há doloridas negociações, imposições, negações e disputas para se aceitar em um corpo.

Não somos maldosas/os por defender a pluralidade e o respeito. E nem levamos mentiras à sociedade. Estudamos muitos e muitos anos para não incorrer em tal… Para não fazer colonização ideológica como mencionam (e a colonização que a Igreja perfez ao longo de sua história, onde a colocamos??)…

Não acabaremos com a família; inclusive, evolutivamente (a ciência ajuda-nos a pensar) seriam necessários milhões de anos para se minar o sentido gregário da nossa espécie apartando-nos de nossas/os próximos/as e pares. Foi nosso sentido gregário que nos fez conviver culturalmente e criar linguagem e sistemas de crenças. E no gregário humano que vivemos como famílias compostas por homens e mulheres… mulheres e mulheres… homens e homens… tias e avôs… amigas e amigos…

Foi nosso sentido gregário que nos fez crer em algo Divino… Mas o Divino não pode ser usado como justificativa de preconceitos e de controles que mais segregam do que aproximam… Não queremos Guerras Santas e intolerâncias…

Ainda nos fazemos mulheres (cientistas, donas de casa, contadoras, professoras, mães, catadoras de lixo, freiras, dependentes químicas, agredidas, conciliadoras, transgêneras, cristãs, evangélicas, agnósticas, umbandistas, ateias, emergentes, pobres, ricas, violentadas, com diversidade funcional, com desejos, com idades, com subjetividades e direitos)…

Queremos respeito e conciliação… Ideologia de Gênero é não existe!

Fabiana Carvalho é Licenciada em Ciências Biológicas (UNESP), Mestre em Educação (UNICAMP), Doutoranda em Educação para a Ciência e Matemática (UEM), Professora do Departamento de Biologia da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Participa dos Grupos de Pesquisa: NUDISEX/UEM; GEPECOS/UEM; CICLO DE ESTUDOS FOUCAULTIANOS/UEM.

Suicídio e LGBTfobia

Setembro é o mês de prevenção ao suicídio. E uma das formas de diminuir o suicídio entre jovens LGBTs é discutindo sobre o projeto “Escola sem Homofobia”. É exatamente o que a AMLGBT faz em suas palestras nas escolas. Mas tem gente, que em nome de um falso cristianismo, prefere fazer de conta que suicídio entre jovens LGBTs, vítimas de preconceito, não existe.

Wilson Matos mamava nas tetas do PT

O dono do UniCesumar, Wilson Matos, odeia o PT. Todo mundo sabe. Ele fazia palestras intermináveis para alunos (clientes) com portas trancadas dizendo o quão era ruim os governos Lula e Dilma.

Nos governos do PT, o UniCesumar saiu do nada, para se tornar uma gigante privada de ensino, com ajuda das politicas dos governo do PT, como bolsas e outros programas de financiamento. Agora, sem o PT, pela primeira vez em décadas, o número de matrículas em universidade privadas caíram.

Matos pediu a derrubada do PT, mas esqueceu que mamava nas tetas dos governos do PT. Intoxicação ideológica.

A Lei é Para Todos?

O filme de Sergio Moro, “A Lei é Para Todos”, parece ficção cientifica quando um homem ejacula em uma mulher e o juiz diz que não houve “constrangimento”. Quem acredita que “A Lei é Para Todos”, acredita em tudo.

Dia da Visibilidade Lésbica

Em 1996, foi criado “um marco fundamental para o registro da luta de mulheres que têm seus direitos violados” todos os dias, no Brasil, por sua orientação sexual. Foi durante o 1º Seminário Nacional de Lésbicas que decidiu-se estabelecer o dia 29 de agosto como o Dia da Visibilidade Lésbica.

Mesmo depois de todos esses anos, ainda é essencial dar visibilidade às demandas, existências e resistências lésbicas.

A invisibilidade da mulher lésbica é a forma de violência mais cruel dentre todas. É cruel porque não é considerada violência, pois se não se vê, não existe. A invisibilidade nega a existência da mulher lésbica. E se ela não existe, não precisa de direitos.

Visibilizar a existência lésbica é resistir, é, como disse Ana Carolina Lacerda “é lutar pelas políticas públicas que sempre nos foram negadas, bem como ocupar o espaço que sempre nos fora tirado. É desnudar nossas especificidades que não podem ser ignoradas. Faz-se de suma importância evidenciar que tanto o machismo, como a misoginia incidem sobre nós e atua em uma de suas mais intensas e cruéis formas, a lesbofobia. É imprescindível manifestar que existimos e estamos nas suas casas, ruas, audiências, nas faculdades, nos hospitais, escritórios, no pódio Olímpico e é até mesmo nas Igrejas e nos Cultos Cristãos – nosso lugar não é apenas nos empregos sem contato direto com o público, tampouco, dentro de nossas casas e muito menos dentro de seus armários. Nosso lugar é onde queremos estar”.

Um texto para mães e pais de pessoas LGBT

por Margot Jung

Nas últimas três semanas, três pessoas me procuraram para pedir apoio e conselhos porque estavam angustiadas com os relacionamentos familiares. Foram três pessoas pedindo socorro, implorando por um milagre que as tirasse da situação em que se encontram. Três vidas banidas da presença de seus pais e mães. Três vidas colocadas à margem da sociedade, na rua, à mercê dos infortúnios que uma vida sem amparo oferece.

E eu gostaria, sinceramente, de entender porque é que isso acontece. Por que é que filhos e filhas se assumirem LGBT para a família os torna indignos, indesejáveis? Ao se assumirem, essas crianças ou adolescentes estão, justamente, procurando apoio, amor e forças para enfrentar o mundo homofóbico a que estão expostos da porta pra fora.

O que elas menos querem é ouvir discursos religiosos, falso moralistas, inspirados em Bolsonaro ou Malafaia. Há até quem bata, tranque no quarto sem celular, exclua as páginas pessoais da internet, troque de escola. Há diversas formas de reprimendas. Todas equivocadas. Bater, trancar, machucar, ofender, degradar, não fará seu filho “deixar” de ser LGBT. Ser gay, lésbica, bissexual, travesti ou transexual não é “vergonha para a família”. Não é algo que se deixe de ser, assim como não se escolhe ser. Conheço pessoas que saíram de casa muito jovens e não têm mais notícias da família há muitos anos. Foram, ao longo da vida, formando outras famílias, errando, acertando, até constituir uma família baseada no amor e na aceitação. Diferente do que deixou para trás.

Cansei de ouvir mães dizendo “não quero que meu filho (ou filha) sofra”. Mas vai sofrer! Independente do nosso querer. Isso não é prerrogativa apenas para homossexuais. Todas as pessoas correm riscos de violência na rua todos os dias. É só por o pé na calçada. Todas as pessoas estão expostas e sujeitas à assédio moral, assédio sexual, violência física, moral, sexual, psicológica. Vivemos num mundo de pessoas más, de pessoas cruéis e sem ética. Não de uma forma generalizada, mas estamos vivendo essa vida nesse mundo. E por terem medo do sofrimento, jogam os filhos e filhas para a rua. Meio estranha essa forma de querer proteger.

No filme “Orações para Bobby”, vemos uma mãe angustiada falar sobre o filho gay que se matou. Em seu testemunho/depoimento, essa mãe diz que ela e muitas das pessoas ali presentes ajudaram Bobby a pular da ponte e perder a vida embaixo de um caminhão.Essa é uma verdade muito dura, pois não aceitar seu filho e sua filha, colocando-os na rua, os expõe a todo tipo de sorte.

Tem um texto que leio várias vezes por semana, chamado “Meu filho é gay, e agora?”no qual o autor AlexeyDodsworth, Mestre em Ética e Filosofia e Doutorando em Filosofia pela Universidade de São Paulo, diz que “se você realmente se preocupa com a possibilidade de seu filho “sofrer mais” por ser homossexual, esforce-se para não ser você mais uma razão para sofrimento na vida dele”, porque “quando o preconceito vem da própria família, principalmente dos pais, este tipo de sofrimento é quase irrecuperável. Gera mágoas profundas e feridas difíceis de cicatrizar. Não é à toa que a incidência de tentativas de suicídio é maior entre gays – não é porque eles são gays que tentam se matar, é por causa dos pais que não os aceitam como são! Você, que deu a vida a seu filho, pense no horror que seria tornar-se provável colaborador da causa de sua morte”.

Normalmente eu evito falar sobre religião quando se tratam de relações entre pais/mães e filhos/filhas LGBT. Mas é impressionante perceber que os filhos e filhas expulsos de casa por serem LGBT são, a maioria, pertencentes a famílias que professam alguma religião. Não tornem Deus em inimigo. Não tornem Deus o algoz de seus filhos e filhas.

Você pode até não aceitar. É um direito seu. Mas antes de ter direitos, você tem deveres. E respeitar seu filho e sua filha como são é seu primeiro dever para com eles. O resto é o amor.

Defensores do “Escola sem Partido” temem adultos com pensamento crítico

Esta semana, o vereador Homero Marchese (PV) trouxe à cena maringaense o projeto da Escola sem partido. Apresentado ao Congresso Nacional em 2016, a ideia inicial dele existe desde 2004 e foi criado por membros da sociedade civil, tendo como principal articulador o Procurador Miguel Nagib, que esteve na última terça-feira (25) reunido com entusiastas do projeto, na Câmara de Vereadores de Maringá. À tarde, a iniciativa foi apresentada em reunião aberta à comunidade e, dos 15 vereadores da Casa, apenas 03 se fizeram presentes: Alex Chaves (PHS), Homero Marchese (PV) e William Gentil (PTB).

O programa “Escola sem partido” tem muitos defensores entre os simpatizantes do Movimento Brasil Livre (MBL). Estudiosos da Educação, contrários ao projeto, afirmam que ele, na verdade, é uma proposta carregada de conservadorismo e autoritarismo. O Escola sem partido não assume sua mensagem conservadora e quer criar no país uma escola medíocre, sem pensamento crítico, pautada num fundamentalismo cristão rejeitado até pelo Papa Francisco, conforme diz o coordenador-geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Daniel Cara.

Uma das particularidades desse projeto é uma determinação de que seja afixado na parede das salas de aula um cartaz, no qual estarão escritos os deveres do professor, com a finalidade de informar os estudantes sobre o direito que eles têm de “não serem doutrinados”. Esse item é admirável, pois se trata de cerceamento à liberdade dos professores e professoras do Brasil. Isso significa que não se pode doutrinar as crianças com relação àquilo que pareça subversivo, esquerdopata, ou petismo. Mas os defensores do projeto parecem não se incomodar com uma doutrinação ultraconservadora, fascista, que proíbe discussão de gênero e cerceadora de liberdades individuais da nação. É mais ou menos assim: parece vermelho, parece comunismo, parece petismo, somos contra!

E para piorar o que não poderia ser pior, junto ao Escola sem partido, temos também a MP 746, da reforma do Ensino Médio e a PEC 241, que congela os gastos públicos em Educação. Os alunos de escolas públicas serão “educados” para não terem acesso às universidades, ficando, cada vez mais, à margem da sociedade. Essa escola sem partido, sem discussão de gênero, sem investimentos, sem recursos será a escola que lançará nossas crianças ao mercado de trabalho como mão de obra barata; será a escola que formará cidadãos e cidadãs sem pensamento crítico, sem visão crítica para impedir que sejam manipuladas por políticos intolerantes e ultraconservadores.

Esses políticos defendem a Escola sem Partido não por terem medo da “doutrinação” de nossas crianças pelos professores e professoras, ou por temerem a ameaça vermelha do comunismo. O que eles temem é as crianças serem seres pensantes, e se tornarem adultas com vontade própria, não manipuláveis, empoderadas e conhecedoras de seus direitos. É o medo de dormir num dia, acordar no outro e descobrir que a Rede Globo não ilude mais ninguém com seu noticiário prestidigitador e nem o governo ilude ninguém com as caras propagandas de um trem reformado e colocado nos trilhos, ou um professor simpatiquinho que explica de maneira mentirosa a reforma da educação.

Aqui no Paraná, deputados conservadores criaram em 2015, um Projeto de Lei (748/2015) que defende, no âmbito do sistema estadual de ensino, a implantação d um Programa Escola sem Partido. Interessante que esse Projeto veio a ser criado após o massacre de 29 de abril, ocasião em que servidores públicos foram bombardeados em praça pública com a conivência do governo estadual, por defenderem a não usurpação dos recursos da Previdência que lhes assegura a aposentadoria. Isso deixa bastante evidente que o projeto era tentativa de calar professores e professoras, de impedir que a verdade sobre o massacre fosse contada aos alunos e alunas de nossas escolas públicas. “Como é que se desenvolve um pensamento crítico se não discutindo política, filosofia, sociologia, história? Você não vai discutir política partidária, mas vai discutir um sentido amplo de organização e composição da sociedade”, argumenta a doutora em educação e pesquisadora da Fundação Carlos Chagas, Sandra Unbehaum.

Ocasionalmente, o Vereador Homero Marchese tece loas à escola sem partido e argumenta que “a doutrinação política em sala de aula é um problema sério” e que prejudica a inteligência e a liberdade individual. Nisso, sou obrigada a concordar com ele. Quero que nossas crianças e professores tenham liberdade para fazer um debate salutar em sala de aula, sem doutrinação de qualquer espécie, sem cerceamento de suas liberdades, sem medo de perseguição, ou retalhamento. Não quero que nossas crianças sejam impedidas de praticar o livre pensar, mas quero que elas saiam da escola, amanhã, com senso crítico e sem condição de ser massa de manobra do fascismo que ora nos ameaça. E isso não é querer muito.

Abrigo em Maringá recebe pessoas LGBT expulsas de casa

Uma realidade muito triste nos assombra atualmente.

Ainda hoje, em pleno século XXI, muitas pessoas, ao assumirem sua orientação sexual ou identidade de gênero para a família, são expulsas de casa.

Pais e mães jogam filhos e filhas na rua, entregando-os à própria sorte e ao desamparo. Alguns, infelizmente, enveredam pelo mundo das drogas, do tráfico, da criminalidade ou da prostituição. Outras pessoas recorrem a algo ainda mais terrível que é o suicídio.

Mas para essas pessoas, colocadas à margem da sociedade pela própria família, existe em Maringá um lugar que as recebe com amor e oferece uma oportunidade de viverem com dignidade. Uma família formada por pessoas que se dedicam ao acolhimento sem receber nada em troca. Nada mesmo!

Não há recursos públicos que ajudem na manutenção da Casa. Ela sobrevive graças às pessoas da sociedade que, num belo exemplo de cidadania, doam dinheiro, alimentos, roupas e calçados, além de tempo e amor.

A Casa Missão Amor Gratuito tem vagas para pessoas LGBT que precisam de um lugar para morar. Se você precisa, procure a Casa. Se você não precisa, mas conhece alguém que sim, encaminhe.

Casa Missão Amor Gratuito
Rua das Rosas, 540
Telefones: (44) 9-9998-1304; (44) 9-9998-7486; (44) 9-9753-9270