Defensores do “Escola sem Partido” temem adultos com pensamento crítico

Esta semana, o vereador Homero Marchese (PV) trouxe à cena maringaense o projeto da Escola sem partido. Apresentado ao Congresso Nacional em 2016, a ideia inicial dele existe desde 2004 e foi criado por membros da sociedade civil, tendo como principal articulador o Procurador Miguel Nagib, que esteve na última terça-feira (25) reunido com entusiastas do projeto, na Câmara de Vereadores de Maringá. À tarde, a iniciativa foi apresentada em reunião aberta à comunidade e, dos 15 vereadores da Casa, apenas 03 se fizeram presentes: Alex Chaves (PHS), Homero Marchese (PV) e William Gentil (PTB).

O programa “Escola sem partido” tem muitos defensores entre os simpatizantes do Movimento Brasil Livre (MBL). Estudiosos da Educação, contrários ao projeto, afirmam que ele, na verdade, é uma proposta carregada de conservadorismo e autoritarismo. O Escola sem partido não assume sua mensagem conservadora e quer criar no país uma escola medíocre, sem pensamento crítico, pautada num fundamentalismo cristão rejeitado até pelo Papa Francisco, conforme diz o coordenador-geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Daniel Cara.

Uma das particularidades desse projeto é uma determinação de que seja afixado na parede das salas de aula um cartaz, no qual estarão escritos os deveres do professor, com a finalidade de informar os estudantes sobre o direito que eles têm de “não serem doutrinados”. Esse item é admirável, pois se trata de cerceamento à liberdade dos professores e professoras do Brasil. Isso significa que não se pode doutrinar as crianças com relação àquilo que pareça subversivo, esquerdopata, ou petismo. Mas os defensores do projeto parecem não se incomodar com uma doutrinação ultraconservadora, fascista, que proíbe discussão de gênero e cerceadora de liberdades individuais da nação. É mais ou menos assim: parece vermelho, parece comunismo, parece petismo, somos contra!

E para piorar o que não poderia ser pior, junto ao Escola sem partido, temos também a MP 746, da reforma do Ensino Médio e a PEC 241, que congela os gastos públicos em Educação. Os alunos de escolas públicas serão “educados” para não terem acesso às universidades, ficando, cada vez mais, à margem da sociedade. Essa escola sem partido, sem discussão de gênero, sem investimentos, sem recursos será a escola que lançará nossas crianças ao mercado de trabalho como mão de obra barata; será a escola que formará cidadãos e cidadãs sem pensamento crítico, sem visão crítica para impedir que sejam manipuladas por políticos intolerantes e ultraconservadores.

Esses políticos defendem a Escola sem Partido não por terem medo da “doutrinação” de nossas crianças pelos professores e professoras, ou por temerem a ameaça vermelha do comunismo. O que eles temem é as crianças serem seres pensantes, e se tornarem adultas com vontade própria, não manipuláveis, empoderadas e conhecedoras de seus direitos. É o medo de dormir num dia, acordar no outro e descobrir que a Rede Globo não ilude mais ninguém com seu noticiário prestidigitador e nem o governo ilude ninguém com as caras propagandas de um trem reformado e colocado nos trilhos, ou um professor simpatiquinho que explica de maneira mentirosa a reforma da educação.

Aqui no Paraná, deputados conservadores criaram em 2015, um Projeto de Lei (748/2015) que defende, no âmbito do sistema estadual de ensino, a implantação d um Programa Escola sem Partido. Interessante que esse Projeto veio a ser criado após o massacre de 29 de abril, ocasião em que servidores públicos foram bombardeados em praça pública com a conivência do governo estadual, por defenderem a não usurpação dos recursos da Previdência que lhes assegura a aposentadoria. Isso deixa bastante evidente que o projeto era tentativa de calar professores e professoras, de impedir que a verdade sobre o massacre fosse contada aos alunos e alunas de nossas escolas públicas. “Como é que se desenvolve um pensamento crítico se não discutindo política, filosofia, sociologia, história? Você não vai discutir política partidária, mas vai discutir um sentido amplo de organização e composição da sociedade”, argumenta a doutora em educação e pesquisadora da Fundação Carlos Chagas, Sandra Unbehaum.

Ocasionalmente, o Vereador Homero Marchese tece loas à escola sem partido e argumenta que “a doutrinação política em sala de aula é um problema sério” e que prejudica a inteligência e a liberdade individual. Nisso, sou obrigada a concordar com ele. Quero que nossas crianças e professores tenham liberdade para fazer um debate salutar em sala de aula, sem doutrinação de qualquer espécie, sem cerceamento de suas liberdades, sem medo de perseguição, ou retalhamento. Não quero que nossas crianças sejam impedidas de praticar o livre pensar, mas quero que elas saiam da escola, amanhã, com senso crítico e sem condição de ser massa de manobra do fascismo que ora nos ameaça. E isso não é querer muito.