Um texto para mães e pais de pessoas LGBT

por Margot Jung

Nas últimas três semanas, três pessoas me procuraram para pedir apoio e conselhos porque estavam angustiadas com os relacionamentos familiares. Foram três pessoas pedindo socorro, implorando por um milagre que as tirasse da situação em que se encontram. Três vidas banidas da presença de seus pais e mães. Três vidas colocadas à margem da sociedade, na rua, à mercê dos infortúnios que uma vida sem amparo oferece.

E eu gostaria, sinceramente, de entender porque é que isso acontece. Por que é que filhos e filhas se assumirem LGBT para a família os torna indignos, indesejáveis? Ao se assumirem, essas crianças ou adolescentes estão, justamente, procurando apoio, amor e forças para enfrentar o mundo homofóbico a que estão expostos da porta pra fora.

O que elas menos querem é ouvir discursos religiosos, falso moralistas, inspirados em Bolsonaro ou Malafaia. Há até quem bata, tranque no quarto sem celular, exclua as páginas pessoais da internet, troque de escola. Há diversas formas de reprimendas. Todas equivocadas. Bater, trancar, machucar, ofender, degradar, não fará seu filho “deixar” de ser LGBT. Ser gay, lésbica, bissexual, travesti ou transexual não é “vergonha para a família”. Não é algo que se deixe de ser, assim como não se escolhe ser. Conheço pessoas que saíram de casa muito jovens e não têm mais notícias da família há muitos anos. Foram, ao longo da vida, formando outras famílias, errando, acertando, até constituir uma família baseada no amor e na aceitação. Diferente do que deixou para trás.

Cansei de ouvir mães dizendo “não quero que meu filho (ou filha) sofra”. Mas vai sofrer! Independente do nosso querer. Isso não é prerrogativa apenas para homossexuais. Todas as pessoas correm riscos de violência na rua todos os dias. É só por o pé na calçada. Todas as pessoas estão expostas e sujeitas à assédio moral, assédio sexual, violência física, moral, sexual, psicológica. Vivemos num mundo de pessoas más, de pessoas cruéis e sem ética. Não de uma forma generalizada, mas estamos vivendo essa vida nesse mundo. E por terem medo do sofrimento, jogam os filhos e filhas para a rua. Meio estranha essa forma de querer proteger.

No filme “Orações para Bobby”, vemos uma mãe angustiada falar sobre o filho gay que se matou. Em seu testemunho/depoimento, essa mãe diz que ela e muitas das pessoas ali presentes ajudaram Bobby a pular da ponte e perder a vida embaixo de um caminhão.Essa é uma verdade muito dura, pois não aceitar seu filho e sua filha, colocando-os na rua, os expõe a todo tipo de sorte.

Tem um texto que leio várias vezes por semana, chamado “Meu filho é gay, e agora?”no qual o autor AlexeyDodsworth, Mestre em Ética e Filosofia e Doutorando em Filosofia pela Universidade de São Paulo, diz que “se você realmente se preocupa com a possibilidade de seu filho “sofrer mais” por ser homossexual, esforce-se para não ser você mais uma razão para sofrimento na vida dele”, porque “quando o preconceito vem da própria família, principalmente dos pais, este tipo de sofrimento é quase irrecuperável. Gera mágoas profundas e feridas difíceis de cicatrizar. Não é à toa que a incidência de tentativas de suicídio é maior entre gays – não é porque eles são gays que tentam se matar, é por causa dos pais que não os aceitam como são! Você, que deu a vida a seu filho, pense no horror que seria tornar-se provável colaborador da causa de sua morte”.

Normalmente eu evito falar sobre religião quando se tratam de relações entre pais/mães e filhos/filhas LGBT. Mas é impressionante perceber que os filhos e filhas expulsos de casa por serem LGBT são, a maioria, pertencentes a famílias que professam alguma religião. Não tornem Deus em inimigo. Não tornem Deus o algoz de seus filhos e filhas.

Você pode até não aceitar. É um direito seu. Mas antes de ter direitos, você tem deveres. E respeitar seu filho e sua filha como são é seu primeiro dever para com eles. O resto é o amor.